domingo, 23 de agosto de 2015

A Vingança de Godzilla (1969)

A Vingança de Godzilla (1969)

Título(s) em Inglês: Godzilla's Revenge; All Monsters Attack

Elenco:  Kenji Sahara, Hideyo Amamoto, Sachio Sakai, Kazuo Suzuki, Tomonori Yazaki, Machiko Naka

Diretor: Ishiro Honda

Produtor: Tomoyuki Tanaka

A Vingança de Godzilla é filme notório entre os fãs. Para muitos, é o *pior* filme Godzilla já produzido. Para outros, é o segundo pior após o Godzilla (1998). Para mais alguns, está entre os piores cinco, sem sombra de dúvida. Para mim, o filme tem certo valor emocional e nostálgico que quase impossibilita uma classificação com os outros filmes.

Quando estava na terceira série, levei emprestado o livro Godzilla de Ian Thorne, livre que, para muitos da minha geração, foi o primeiro "fonte" de informações sobre a série de Godzilla organizado num livro. Infelizmente, estava claro que o Thorne escreveu o livro baseado em parte por lembranças desses filmes, pois quando falou de A Vingança de Godzilla, ele falou que o filme foi sobre um rapaz que sofria abuso com seus pais e que o filme terminou com os pais prometendo a nunca mais abusá-lo. Não foi bem assim quando finalmente assisti o filme.

Adquiri o filme no verão de 1991 durante uma visita ao shopping (provavelmente em Pleasanton, embora poderia ter sido em Modesto). Estava a venda por apenas 10 dólares e foi a primeira vez que eu o vi na prateleira. Acordei bem cedo no próximo dia para assistir. Não foi aquilo que esperei. Mas, por ser um filme curto, consegui assistir uma segunda vez em seguido antes dos meus irmãos acordarem. Poucas horas depois, foi na casa do meu amigo Dante no outro lado da rua e assisti com ele. Mais ainda, esse foi o filme que usei para tentar converter os meus amigos da quarta série para Godzilla, embora não funcionou.

O filme conta a história de Ichiro (Tomonori Yazaki), uma criança alienada pelos pais (que trabalham demais) e por seus colegas (ele sofre bullying por um grupo de rapazes liderado por um garoto chamado Gabara). Ele passa muito tempo sozinho em casa, e a única pessoa que consegue simpatizar com ele é um inventor de brinquedos, Manami (Hideyo Amamoto, A Fuga de King Kong). O mecanismo que o Ichiro desenvolveu para lidar com a solidão é imaginar que ele vai para a Ilha Ogasawara, também conhecida como a Ilha dos Monstros. Lá, ele faz amizade com Minya, o filho de Godzilla (nos sonhos do Ichiro, Minya para mudar de tamanho e falar--na versão japonesa, ele tem voz de menina; na versão americana, ele tem voz de caipira).  Daí o motivo do desgosto que os fãs sentem pelo filme: as aventuras dos dois consistem principalmente em assistir as lutas do Godzilla, que são cenas reutilizadas de Ebirah, Horror do Abismo e O Filho de Godzilla. As únicas cenas novas envolvem o monstro Gabara, o monstro valentão que atormenta Minya. Está vendo um paralelo aqui?

Durante um dos seus passeios pelo distrito industrial onde ele mora, o Ichiro entra numa fábrica abandonada. Ele acha uma carteira descartada...bem, não exatamente. A carteira pertence a um de dois ladrões que acabou de roubar 50 milhões de ienes de um banco, que agora estão escondendo da polícia. Os ladrões conseguem descobrir onde Ichiro mora o sequestram. Então, o garoto coloca em prática as lições que aprendeu na Ilha dos Monstros para se livrar dos bandidos idiotas. Espera aí!!! Um garoto? Que se defende contra dois bandidos? Num lugar solitário? Nossa, A Vingança de Godzilla na verdade é o protótipo de Esqueceram de Mim!!!!

Capa da fita VHS que eu tinha
A origem do filme é interessante. O cinema em Japão estava sofrendo muito na segunda metade dos anos 60 por causa da televisão e o sucesso de shows como Ultraman, Ultra 7, Vingadores do Espaço e outros programas. Afinal, agora as crianças poderiam assistir monstros gigantes em casa na televisão colorida. (OBS: esse fenômeno afetou o cinema japonês como um todo, e não apenas os filmes de monstro) No entanto, o estúdio Toei achou sucesso no cinema com uma maratona que passava no cinema (principalmente nos fins de semana) que consistia em episódios de alguns desenhos e talvez um filme de desenho animado. Assim, os pais podiam deixar as crianças no cinema por algumas horas enquanto faziam compras ou algo assim (foi assim que os filmes de Dragon Ball Z foram lançados no cinema japonês).

Então, o estúdio Toho começou a fazer a mesma coisa. Trabalhando como Tsuburaya Productions, que criou Ultraman, eles fizeram uma espécie maratona de programas juvenis para as crianças assistirem no cinema como um único pacote. Teria alguns episódios de Ultraman e um filme curto. Alguns desses foram filmes antigos de Godzilla editados para 70 minutos. Daí, o produtor Tomoyuki Tanaka resolveu seguir os passos de Gamera e fazer um filme novo, mas que poderia reciclar cenas de outros filmes. Assim a produção seria muito mais barata. O resultado foi este filme. Com o passar dos anos, essas maratonas cinemáticas de programas para crianças fizeram tanto sucesso que os cinemas começaram a pedir novos filmes, o que levou à ressurreição da série Godzilla em 1971.

Entendendo o contexto em que A Vingança de Godzilla foi produzido e aceitando-o não como filme de Godzilla, mas um filme sobre uma criança que gosta de Godzilla, é possível apreciá-lo pelo que realmente é. O filme é um comentário sobre o desenvolvimento econômico japonês na década de 60 e 70, e o efeito que teve sobre as crianças. Muitos pais da classe médio tinham que trabalhar, às vezes dois turnos em seguido, para sustentar a família e seus filhos cresciam como "latchkey kids" (i.e. crianças que voltam sozinhos da escola que ficaram sozinhas em casa até que os pais chegaram). As primeiras imagens do filme é do Ichiro e uma coleguinha da escola andando sem supervisão de adultos no meio do cacofonia de carros e caminhões que caracterizava a região industrial de qualquer cidade grande em Japão. A encrenca que o menino arruma com os ladrões começa pela falta de um adulto que poderia impedi-lo de brincar num prédio abandonado. Algumas famílias tinham um avô presente para ajudar, mas o Ichiro só tem o Manami, que ainda tem que trabalhar (mesmo em casa).

A Vingança de Godzilla no final é um filme charmoso e fascinante de assistir, embora diferente dos demais e faltando em cenas originais de efeitos especiais. Dito isso, prefiro a versão americana à versão japonesa. O Minya caipira tem mais personalidade do que o Minya japonês, e a música que toca no começo da versão dublada é mais legal e funky do que a canção infantil irritante que se ouve na versão japonesa.

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