quinta-feira, 30 de julho de 2015

Gammera: O Monstro Invencível (1965/1966)

Gammera o Monstro Invencível (1965/1966)

Título em Inglês: Giant Monster Gamera; Gammera, the Invincible

Elenco: Albert Dekker, Brian Donlevy, Eiji Funakoshi, Harumi Kiritachi, Junichiro Yamashiko, Jun Hamamura

Diretor(es): Noriaki Yuasa, Sandy Howard (novas cenas)

Produtor(es): Masaichi Nagata

Sinopse: Um jato russo é derrubado pela força aérea Americana no extremo norte de Alasca. O impacto do jato detona as bombas atômicas que estava carregando, e a explosão liberta Gamera, uma tartaruga monstro de 50 metros. O monstro vai para Japão e ataca uma usina geotermal antes de ir para Tóquio. Somente o “Plano Z” pode derrotar o monstro.

É surpreendente que outros estúdios japoneses demoraram tanto para tentar ganhar dinheiro em cima do sucesso internacional do Godzilla. Em 1966, Godzilla já estava aparecendo no seu sexto filme, o Toho já havia produzido vários outros filmes de monstro gigante. Além disso, os ingleses já haviam tentado entrar no jogo com filmes como O Monstro Submarino e Gorgo. Até a Dinamarca fez o Reptilicus, que contou com um dinossauro gigante atacando o Copenhagen.

Um dos primeiros tentativos para copiar o Godzilla foi um programa de televisão chamada Agon, the Atomic Dragon. O seriado contou sobre um dinossauro gigante que foi acordado devido a uma explosão atômica e ataca Japão. Produzido em 1961, o programa foi processado pelo Toho por violar seus direitos autorais sobre o Godzilla. A produção foi parada e o seriado só entrou no ar em 1966.

A segunda tentativa japonesa de seguir as pegadas do Godzilla foi mais bem sucedido, criando uma criatura quase tão icônica quanto ao Godzilla, e mais inequívoco do que o mesmo: Gamera. O estúdio responsável pela criação foi o Daiei, que antes tinha pouca expressão no gênero de ficção científica—eles produziam a série de Zatoichi, o espadachim cego e fizeram o filme clássico Chushingura, que conta a lenda dos 47 ronin. O único filme de ficção que havia produzido antes de Gammera the Invincible foi Warning from Space, uma variação no tema explorado pelo filme O Dia em que a Terra Parou em que seres extraterrestres—nesse filme, parecem pessoas que resolveram ir para uma festa de Halloween vestidas de estrela do mar--tentam advertir a terra sobre as tendências bélicas do homem.

Gammera the Invincible não tem as mesmas pretensões de sequer Warning from Space ou Godzilla, o Monstro do Mar. O cenário da Guerra Fria e a ameaça de guerra nuclear servem apenas como uma explicação de como o monstro seria solta nos tempos modernos. O roteiro é um composto de elementos do primeiro filme de Godzilla, de O Monstro do Mar e de Rodan!...o Monstro do Espaço. Do primeiro há a premissa de um monstro indestrutível que cospe fogo atacando Japão; do segundo o roteirista tirou a ideia do monstro estar preso no gelo no ártico, sendo libertado por uma explosão nuclear; do terceiro, há uma breve sequência em que um OVNI e reportado em vários partes do globo, parecido como o Rodan.

Logicamente, o diretor Noriaki Yuasa, roteirista Nisan Takahashi e diretores de efeitos especiais Ryosaku Takayama e Yonesaburu Tsukiji puseram seus toques pessoais numa história já contada inúmeras vezes. O mais marcante foi a natureza do monstro. A maioria dos monstros gigantes no cinema até 1965 haviam sido dinossauros, insetos e aracnídeos. Criar um monstro tartaruga gigante em si já é pensar out of the box. Mas para fazer isso e ainda conceder-lhe a habilidade de transformar num disco voador é uma reviravolta surrealista que Toho jamais colocaria nos seus filmes até a próxima década. Takayama e Tsukiji desenharam uma fantasia bela do Gamera, trocando a cara de bico de uma tartaruga normal para algo que parece mais como um dinossauro. Os detalhes da fantasia são bem complementados pela fotografia preta e branca. As miniaturas, principalmente durante o ataque do Gamera na usina geotermal e em Tóquio estão quase a par com o melhor trabalho de Eiji Tsuburaya. Os efeitos menos convincentes são os jatos que aparecem no começo. Vale observar que as cenas do Gamera em pleno voo foram feitas através de desenhos animados superimpostos no celuloide, o que não foi feito depois quando os filmes foram feitos em cor.

Infelizmente, o roteiro em si não aguenta nem um pouco de análise. Na verdade, as detalhes da história são tão ridículas que quase transformam o filme numa paródia, mas com a mesma falta de ironia que Leslie Nielsen demonstrava em Corra que a Polícia Vem Aí! Isso se aplica a ambas as versões do filme: a original e a que estreou nos EUA com cenas de atores americanos como Albert Dekker (O Delírio de um Sábio) e Brian Donlevy (Terror que Mata) inseridas no meio. Na versão americana, o personagem principal, Dr. Hidaki, está a procura de tartarugas gigantes em Alasca. Isso já é um absurdo. Na versão japonesa, ele está em busca de evidências que tartarugas gigantes viviam na Atlântida. Daí surgem as perguntas: Como ele conseguiu prova de que a Atlântida existisse de verdade? O que levou o Hidaki a pensar que tartarugas habitavam neste lugar? Por que ele está procurando evidência em Alasca, quando Atlântida existia no Oceano Atlântico? Como um zoólogo com uma teoria dessas se torna um dos cientistas mais respeitados no mundo, segundo a lógica interna do filme?

E a questão dos aviões soviéticos voando sobre Alasca carregando bombas nucleares. Se estiver assistindo a versão americana, percebe-se que o assunto é esquecido até um momento perto do final do filme quando um senador tem uma discussão com o embaixador russo—o tom da cena é um de humor. Mas no filme japonês, o assunto não é mencionado em momento algum. Mas se a União Soviética acabou de fazer um ato de guerra como entrar no espaço aéreo americano carregando armas nucleares, como é que os dois países poderiam estar trabalhando em conjunto no Plano Z sem o mínimo de inimizade. Por sua vez, quem teve a ideia de construir um foguete de uns 300 metros numa ilha perto de Tóquio com um vulcão ativo? Como é que nem os Japoneses parecem saber que dois rivais internacionais estão construindo um foguete no seu próprio solo? E qual era a finalidade de um foguete de 300 metros no primeiro lugar?


Igualmente bizarra é a inclusão de uma criança, Toshio, como um protagonista que deseja proteger o Gamera. A cena foi cortada da versão inglesa do Sandy Frank, mas no filme japonês, o garoto acha que o Gamera é na verdade a tartaruga de estimação dele, Pee Wee, que ele soltou pouco tempo depois do Gamera aparecer em Japão. Este detalhe é perdido em inglês, assim nos dando um personagem que declara que o Gamera é o amigo de todas as crianças, mesmo quando a criatura está derrubando prédios cheios de adolescentes! É como o Gamera fosse criado já num estado de transição de vilão para herói, ao contrário de Godzilla, que evoluiu gradualmente durante vários filmes para chegar nesse ponto...ou talvez o roteirista não sabia o que estava fazendo.

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