quinta-feira, 30 de julho de 2015

Gamera vs. Jiger/Gamera vs. Monster X (1970)

Gamera vs. Jiger/Gamera vs. Monster X (1970)

Elenco: Tsutomu Takakuwa, Kelly Varis, Katherine Murphy, Kon Ohmura

Diretor(es): Noriaki Yuasa

Produtor(es): Hidemasa Nagata, Masaichi Nagata

Sinopse:  Em preparação para o Japan Expo 70, um grupo de arqueólogos escava e remove um ídolo de pedra de uma ilha na Ilha Pacífica, com a finalidade de exibir no Expo. Apesar da intervenção do Gamera e do embaixador da ilha, a estátua é levada para Japão. Um monstro pré-histórico emerge do chão onde a estátua estava e luta contra o Gamera, desabilitando-o. O monstro, Jiger, vai para Japão em busca da estátua, deixando a morte e caos no seu rastro. O Gamera se recupera e vai para Japão para lutar novamente. Esta vez, a Jiger implanta um embrião dentro do Gamera, incapacitando-o. Apenas uma dupla de crianças poderão salvar o Gamera...e o mundo.

Após dois filmes tratando com invasores do espaço, cenas roubadas de filmes anteriores e cortes óbvios no orçamento, o Gamera voltou à forma neste penúltimo capítulo da primeira série. O orçamento ainda estava limitado: os cenários estão limitados; a fotografia favorece close-ups em muitas cenas para mascarar a falta de cenário; e os efeitos especiais—principalmente as miniaturas—estão no nível de um seriado tokusatsu da televisão. Além disso, o roteiro é tão desprovido de lógica e sentido quanto aos dois filmes anteriores. Mas ao mesmo tempo, toda a ação de monstro gigante é composta de novas cenas (obs: há uma montagem de cenas dos outros filmes durante a abertura do filme, mas isso não conta) e a quantidade é maior do que os últimos dois filmes. E, mais importante, o Daiei continuou pensando “fora da caixa”, criando não apenas um oponente que representa o apogeu de monstros com poderes estranhos, mas incluindo uma homenagem ao filme Viagem Fantástica num filme que nem tinha dinheiro para montar as cenas de destruição de cidade direito, muito menos uma cena dentro do corpo do Gamera.

Gamera vs. Jiger não tem uma história tanto quanto tem um set-up para explicar por que o monstro Jiger está atacando. Neste sentido o filme parece uma mistura de Mothra e Gamera vs. Barugon, pois há um monstro que sai de uma ilha pacífica em busca de algo associado com a sua lenda (Mothra), e o objeto que atrai a sua atenção é justamente o seu ponto mais fraco (Gamera vs. Barugon). Tudo isso ocorre com a Exposição Mundial de 1970 em Osaka como pano de fundo. Os cineastas merecem louvores por não usar filmagens da exposição para encher a linguiça e aumentar a duração do filme.

Por sua vez, o Jiger é um monstro fascinante. Por um lado, a sua aparência é o mais convencional de todos os monstros que o Gamera já lutou: parece um tricerátope com a posição dos chifres invertida e sem a crista. O que mais destaca o Jiger são os seus poderes e habilidades. Afinal, quantos tricerátopes vocês conhecem que atiram arpões dos seus chifres? Ou que possuem poderes de telecinesia?  Além disso, o monstro também é portador de um raio que o roteirista não tem certeza de se é um raio de energia sônica, ou um raio de calor.  Mas o poder mais marcante do Jiger é que o monstro, através da cauda, é capaz de injetar um embrião dentro de outro ser vivo. Lembrem-se de que este filme foi produzido oito anos antes de Alien: O 8º Passageiro.

Esta cena em particular é particularmente bizarra. Os dois protagonistas (um rapaz japonês e outro inglês) roubam um mini-submarino do pai do primeiro e entram no corpo do Gamera, que foi paralisado após a injeção do feto no seu corpo. Eles chegam no pulmão no monstro e saem do submarino, sem roupas especiais, sem tanque de ar, sem nada. Andando pelo pulmão da criatura, que parece uma caverna—até tem solo no chão--eles encontram o feto, que parece como a mãe, só que tem o tamanho de um ser humano. Ele ataca atirando cola(!) dos seus chifres. A parte fascinante é que em momento nenhum o submarino é atacado por glóbulos brancos ou anticorpos, provocando um fã a supor que não apenas o Gamera é o amigo de todas as crianças, mas as suas células e tecidos também. Quando o filme lançado em 1970, ainda não tinha filmes como Alien, então as crianças então não teriam elaborado uma imagem mental em que o Jiger sai do peito do Gamera. Mas para quem assistiu nos anos 80, isso devia ter sido a matéria da qual os pesadelos são feitos.

A verdade é que o filme inteiro é um poço de combustível para pesadelos, mais que os outros filmes de Gamera. Quando o Jiger está nadando para Japão, é mostrado um navio cheio de homens doentes que haviam tocado no ídolo. Por um minuto vemos o seu sofrimento e loucura. Segundos depois, o Jiger colide com o barco, matando todos a bordo. Sempre imaginamos que nos filmes de Godzilla, haveria pessoas que morreriam durante os ataques de monstros gigantes. Os filmes do Gamera tendiam a ser mais explícitos sobre o fato, apesar de serem feitos para crianças pequenas. Durante o ataque do Jiger em Osaka, ele utiliza o seu raio da morte, que transforma pessoas inocentes em esqueletos. E quando o Gamera está com o embrião do Jiger dentro dele, um médico nos mostra um documentário de um elefante doente. Sem recuar, o diretor Noriaki Yuasa permite que a plateia infantil veja um grupo de médicos abrir a tromba inchada do elefante com bisturi, e tirar milhares de vermes de dentro dela. Isso jamais aconteceria num filme do Disney.

É igualmente interessante que este filme alega carregar consigo uma mensagem séria sobre crianças. No filme Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quando o Dumbledore ouve o relato do Harry e Hermione sobre o Sirius Black, ele comenta que ele acredita no que falam, mas muitos adultos, por terem perdido a sua imaginação ao longo dos anos, jamais o fariam. Isso resume o conflito entre as crianças e os adultos aqui. Por mais que os dois garotos sempre chegam na conclusão correta, mesmo sem todas as informações à sua disposição, os adultos sempre se demonstram céticos a respeito. Apenas o cientista principal demonstra um pouco de confiança nas teorias corretas dos meninos. A grande mensagem é que os adultos jamais deverão subestimar o poder da imaginação da criança. É uma mensagem admirável, sim. A segunda lição é menos admirável: Não há problema em deixar os seus filhos assistirem uma luta de monstros gigantes de perto, desde que o Gamera esteja por perto. Sim, um personagem diz isso no filme. São técnicas de ser pai que jamais deveríamos nos esquecer!

Nenhum comentário:

Postar um comentário