quinta-feira, 30 de julho de 2015

Zigrah, Terror do Planeta (1971)

Zigrah, Terror do Planeta (1971)


Título(s) em Inglês: Gamera vs. Zigra

Elenco: Koji Fujiyama, Reiko Kasahara, Isamu Saeki, Yasushi Sakagami, Eiko Yanami

Diretor(es): Noriaki Yuasa

Produtor(es): Hidemasa Nagata, Yoshihiko Manabe

Sinopse: Uma astronauta na lua é sequestrada e hipnotizada por um ser alienígena chamada Zigrah. Dois cientistas humanos (um japonês e um branco) e seus filhos (um garoto e uma garota) são raptados por Zigrah como parte do seu plano para destruir o mundo. As crianças conseguem escapar e são salvos pela Gamera. A Gamera consegue destruir o disco voador do Zigrah, que então revela a sua verdadeira forma: um tubarão mutante espacial!

Zigrah, Terror do Planeta foi o último filme da série original do Gamera antes do estúdio Daiei entrar em falência no mesmo ano. O Daiei parou operações durante três anos, voltando a produzir filmes em 1974, mas com um volume bem menor do que havia feito antes. A série Showa de Gamera ficou em coma até 1980, quando a produção ultra-barata Super Monster Gamera foi lançada. Super Monster Gamera foi composta quase inteiramente de cenas de todos os filmes anteriores do Gamera, contando com apenas dois minutos de cenas novas de efeitos especiais. Havia planos para filmar um filme original, Gamera vs. Garasharp, em que a tartaruga gigante lutaria contra um grande serpente no estilo de Manda. Mas o projeto não foi para frente—hoje os storyboards desse filme abortado podem ser vistos facilmente pela internet. Então, se o Zigrah, Terror do Planeta for considerado como o último filme mesmo da série, lamentaremos dizer que que os cineastas conseguiram deixar o poço mais fundo ainda do que vimos em Destruam Toda a Terra!

Como nos três filmes anteriores, o orçamento aqui estava obviamente limitado, embora os cineastas resistiram a tentação de roubar mais cenas dos outros filmes. Em vez disso, o cenário é em grande parte limitado para um parque aquático e uma porção razoável da duração do filme é composta de filmagens feitas dos animais do parque. A história trata mais uma vez de uma invasão extraterrestre, esta vez pelo ser Zigrah, que é um tubarão espacial (!) inteligente. Ele alega que os oceanos do seu planeta foram estragados pela “ciência terráquea,” que não faz sentido, já que ninguém no filme ouviu falar desse filme e em momento nenhum foi estabelecido nos filmes anteriores que os homo sapiens possuía a tecnologia necessária para viajar para outras galáxias. Zigra quer conquistar os oceanos da Terra e usar a raça humana como alimentação, e pretende causar terremotos para esse fim (preste atenção: tudo que tem haver com destruição de cidade é descrito pelos personagens em vez de ser mostrado através de efeitos especiais).

Opondo-se ao Zigra são duas crianças—uma garota branca, Helen (Gloria Zoellner), e um garoto japonês, Kenichi (Yasushi Sakagami)—que são mais jovens ainda do que os pré-adolescentes dos filmes anteriores. Como o Zigrah é capaz de causar terremotos que matam dezenas de milhares de pessoas mas não consegue matar dois mirins é bastante confuso. Ainda mais que essas crianças não exibem a mesma inteligência precoce que os protagonistas dos filmes anteriores demonstraram. Eles passarão boa parte do filme fugindo da mulher que trabalha pelo Zigra (estrelada por Eiko Yanami, mais famosa por aparecer na série de Koukousei, um dos quais foi lançado no Brasil como O Jogo do Sexo) ou arrumando alguma confusão com os seus pais (o pai da Helen é estrelado por ator japonês Koji Fujiyama, que apareceu nos primeiros dois filmes do Gamera e alguns filmes da série Lobo Solitário) e você, o telespectador, passará boa parte do filme perguntando-se por que ninguém consegue matá-los.

Gamera não tem muito para fazer até a segunda metade do filme, quando ele finalmente ataca o navio espacial do Zigra, que está estacionado abaixo do mar. O bafo flamejante do Gamera aparentemente funciona normal abaixo da água(!) e ele consegue destruir o navio, libertando o Zigra. A primeira luta é uma das mais entediantes da história do kaiju eiga, em que ambos os monstros ficam balançando suas patas/barbatanas e fazendo quase nada durante mais parte da cena. No final, o Zigra atinge o Gamera com um raio paralisador e deixa o Gamera como estátua. Os dois lutam no final do filme, que é notável pelo momento quando o Gamera toca a sua música de tema nos espinhos dorsais do Zigra.

Zigra parece um tubarão duende metálico e provavelmente foi a inspiração para Knifehead, o kaiju que luta contra Gypsy Danger no começo de Círculo de Fogo do Guillermo del Toro. A ideia de um tubarão kaiju é fascinante, mas o problema dele (e os outros monstros do Gamera) é a falta de uma aparência antropomórfico, o que limita os seus movimentos, principalmente na hora de lutar. A ideia de usar a cabeça como uma navalha é interessante, mas é a única técnica de luta que tem. Os filmes de Godzilla durante os anos 70 sofreram cortes parecidos no seu orçamento, mas o desenho geral das criaturas permitiam um range maior e mais diversificado de ataques, fazendo as lutas dos monstros muitas vezes mais interessantes. Aqui, a falta de movimento junto com a mesma trilha pouca inspirada dos outros filmes do Gamera tornam o que deveriam ser as cenas mais cheias de emoção num verdadeiro tédio.

Lamentável tudo isso, pois Zigrah, Terror do Planeta poderia facilmente ser um dos filmes de kaiju mais sombrios desde Gojira/Godzilla, o Monstro do Mar, se não fosse pela falta de grana e a insistência nos produtores em ter crianças como o público alvo. Os filmes do Gamera sempre eram mais sombrios do que os filmes do Godzilla apesar de serem mais infantis no seu exterior. Mas aqui supera os outros filmes. Entre os terremotos na Índia e em Tóquio, o número de mortos facilmente poderia superar o número de pessoas que perderam a sua vida quando o Godzilla atacou pela primeira vez. Em uma cena, podemos ouvir a voz do rádio comentando no número de famílias mortas pelo Zigra. Se tirasse os atores mirins chatos e gastasse mais uns ienes em construir miniaturas, poderia ter sido um filme que nos lembraria o quão perigoso uma batalha de monstros realmente é. Do jeito que é, parece mais um detalhe de um filme ruim que nos lembra o quão pouco dinheiro tinham para produzi-lo.

Gamera vs. Jiger/Gamera vs. Monster X (1970)

Gamera vs. Jiger/Gamera vs. Monster X (1970)

Elenco: Tsutomu Takakuwa, Kelly Varis, Katherine Murphy, Kon Ohmura

Diretor(es): Noriaki Yuasa

Produtor(es): Hidemasa Nagata, Masaichi Nagata

Sinopse:  Em preparação para o Japan Expo 70, um grupo de arqueólogos escava e remove um ídolo de pedra de uma ilha na Ilha Pacífica, com a finalidade de exibir no Expo. Apesar da intervenção do Gamera e do embaixador da ilha, a estátua é levada para Japão. Um monstro pré-histórico emerge do chão onde a estátua estava e luta contra o Gamera, desabilitando-o. O monstro, Jiger, vai para Japão em busca da estátua, deixando a morte e caos no seu rastro. O Gamera se recupera e vai para Japão para lutar novamente. Esta vez, a Jiger implanta um embrião dentro do Gamera, incapacitando-o. Apenas uma dupla de crianças poderão salvar o Gamera...e o mundo.

Após dois filmes tratando com invasores do espaço, cenas roubadas de filmes anteriores e cortes óbvios no orçamento, o Gamera voltou à forma neste penúltimo capítulo da primeira série. O orçamento ainda estava limitado: os cenários estão limitados; a fotografia favorece close-ups em muitas cenas para mascarar a falta de cenário; e os efeitos especiais—principalmente as miniaturas—estão no nível de um seriado tokusatsu da televisão. Além disso, o roteiro é tão desprovido de lógica e sentido quanto aos dois filmes anteriores. Mas ao mesmo tempo, toda a ação de monstro gigante é composta de novas cenas (obs: há uma montagem de cenas dos outros filmes durante a abertura do filme, mas isso não conta) e a quantidade é maior do que os últimos dois filmes. E, mais importante, o Daiei continuou pensando “fora da caixa”, criando não apenas um oponente que representa o apogeu de monstros com poderes estranhos, mas incluindo uma homenagem ao filme Viagem Fantástica num filme que nem tinha dinheiro para montar as cenas de destruição de cidade direito, muito menos uma cena dentro do corpo do Gamera.

Gamera vs. Jiger não tem uma história tanto quanto tem um set-up para explicar por que o monstro Jiger está atacando. Neste sentido o filme parece uma mistura de Mothra e Gamera vs. Barugon, pois há um monstro que sai de uma ilha pacífica em busca de algo associado com a sua lenda (Mothra), e o objeto que atrai a sua atenção é justamente o seu ponto mais fraco (Gamera vs. Barugon). Tudo isso ocorre com a Exposição Mundial de 1970 em Osaka como pano de fundo. Os cineastas merecem louvores por não usar filmagens da exposição para encher a linguiça e aumentar a duração do filme.

Por sua vez, o Jiger é um monstro fascinante. Por um lado, a sua aparência é o mais convencional de todos os monstros que o Gamera já lutou: parece um tricerátope com a posição dos chifres invertida e sem a crista. O que mais destaca o Jiger são os seus poderes e habilidades. Afinal, quantos tricerátopes vocês conhecem que atiram arpões dos seus chifres? Ou que possuem poderes de telecinesia?  Além disso, o monstro também é portador de um raio que o roteirista não tem certeza de se é um raio de energia sônica, ou um raio de calor.  Mas o poder mais marcante do Jiger é que o monstro, através da cauda, é capaz de injetar um embrião dentro de outro ser vivo. Lembrem-se de que este filme foi produzido oito anos antes de Alien: O 8º Passageiro.

Esta cena em particular é particularmente bizarra. Os dois protagonistas (um rapaz japonês e outro inglês) roubam um mini-submarino do pai do primeiro e entram no corpo do Gamera, que foi paralisado após a injeção do feto no seu corpo. Eles chegam no pulmão no monstro e saem do submarino, sem roupas especiais, sem tanque de ar, sem nada. Andando pelo pulmão da criatura, que parece uma caverna—até tem solo no chão--eles encontram o feto, que parece como a mãe, só que tem o tamanho de um ser humano. Ele ataca atirando cola(!) dos seus chifres. A parte fascinante é que em momento nenhum o submarino é atacado por glóbulos brancos ou anticorpos, provocando um fã a supor que não apenas o Gamera é o amigo de todas as crianças, mas as suas células e tecidos também. Quando o filme lançado em 1970, ainda não tinha filmes como Alien, então as crianças então não teriam elaborado uma imagem mental em que o Jiger sai do peito do Gamera. Mas para quem assistiu nos anos 80, isso devia ter sido a matéria da qual os pesadelos são feitos.

A verdade é que o filme inteiro é um poço de combustível para pesadelos, mais que os outros filmes de Gamera. Quando o Jiger está nadando para Japão, é mostrado um navio cheio de homens doentes que haviam tocado no ídolo. Por um minuto vemos o seu sofrimento e loucura. Segundos depois, o Jiger colide com o barco, matando todos a bordo. Sempre imaginamos que nos filmes de Godzilla, haveria pessoas que morreriam durante os ataques de monstros gigantes. Os filmes do Gamera tendiam a ser mais explícitos sobre o fato, apesar de serem feitos para crianças pequenas. Durante o ataque do Jiger em Osaka, ele utiliza o seu raio da morte, que transforma pessoas inocentes em esqueletos. E quando o Gamera está com o embrião do Jiger dentro dele, um médico nos mostra um documentário de um elefante doente. Sem recuar, o diretor Noriaki Yuasa permite que a plateia infantil veja um grupo de médicos abrir a tromba inchada do elefante com bisturi, e tirar milhares de vermes de dentro dela. Isso jamais aconteceria num filme do Disney.

É igualmente interessante que este filme alega carregar consigo uma mensagem séria sobre crianças. No filme Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quando o Dumbledore ouve o relato do Harry e Hermione sobre o Sirius Black, ele comenta que ele acredita no que falam, mas muitos adultos, por terem perdido a sua imaginação ao longo dos anos, jamais o fariam. Isso resume o conflito entre as crianças e os adultos aqui. Por mais que os dois garotos sempre chegam na conclusão correta, mesmo sem todas as informações à sua disposição, os adultos sempre se demonstram céticos a respeito. Apenas o cientista principal demonstra um pouco de confiança nas teorias corretas dos meninos. A grande mensagem é que os adultos jamais deverão subestimar o poder da imaginação da criança. É uma mensagem admirável, sim. A segunda lição é menos admirável: Não há problema em deixar os seus filhos assistirem uma luta de monstros gigantes de perto, desde que o Gamera esteja por perto. Sim, um personagem diz isso no filme. São técnicas de ser pai que jamais deveríamos nos esquecer!

Batalha dos Monstros (1969)

Batalha dos Monstros (1969)

Título(s) em Inglês: Gamera vs. Guiron; Attack of the Monsters

Elenco: Nobuhiro Kajima, Miyuki Akiyama, Christopher Murphy, Yuko Hamada

Diretor(es): Noriaki Yuasa

Produtor(es): Hidemasa Nagata, Masaichi Nagata

Sinopse: Dois garotos, um japonês e outro branco, encontram um navio espacial perto da sua casa. Os dois entram nele e são levados para outro planeta, que fica na mesma órbita da terra, mas em invisível ao telescopo. Lá conhecem um par de irmãs ET e o seu bicho de estimação, um monstro gigante chamado Guiron. A princípio, as anfitriãs são extremamente bondosas. Mas isso só esconde as suas verdadeiras intenções: elas são canibais e os meninos estão no cardápio! ---

Batalha dos Monstros é um bom exemplo de como a visão dos japoneses sobre o que seria apropriado para crianças difere do Oeste, principalmente os Estados Unidos e o Hollywood. A violência no Hollywood para programas e filmes infantis é frequentemente tão cômico e exagerado que se torna inofensiva. Sangue raramente faz parte do negócio. É só assistir o filme Esqueceram de Mim para entender; por mais que os ladrões levam pancadas que matariam uma pessoa normal, nem uma única gota de sangue aparece no seu corpo. Além disso, filmes que colocam crianças em perigo são frequentmente criticados por jornalistas, como no caso de Despertar de um Pesadelo com Samuel L. Jackson.

Este filme, porem, pega essas normas conservidoras, joga-as no chão, cospe nelas, e depois convida os monstros gigantes para pisar nelas. Afinal, quantos filmes infantis—e vamos lembrar que os filmes de Gamera eram filmes para crianças—têm cenas em que um monstro não apenas decapita o seu oponente, mas esquarteja-o enquanto solta rugidos que parecem risadas? Ou em que o plano das alienígenas é não apenas matar as crianças, mas devorar o seu cérebro e guardar os restos para depois? Não estamos falando de uma cena cómica em que a criança é colocada num caldeirão gigante enquanto as mulheres cortam cenouras e colocam a água. Não, neste filme, as mulheres chegam a raspar o cabelo do garoto e estão quase abrindo a cabeça dele na nossa frente antes de serem interrompidas. Esse tipo de atitude não se vê no Oeste.

São esses toques perversos e sádicos, além da oportunidade de ver o Gamera lutando em outro planeta, que distinguem o filme dos outros filmes (inferiores) em que o Gamera luta contra os invasores do espaço. Mas a violência não compensa completamente um roteiro fraca—mesmo pelos padrões do gênero—cheio de momentos ilógicos que poderão explodir a cabeça de qualquer pessoa racional (quem gosta de ciência deverá ter o maior cuidado). No universo apresentado por este filme, é possível cortar um navio espacial no meio, juntar os dois pedaços e levar pessoas através do espaço sem elas queimarem na atmosfera. Aqui as pessoas acham um absurdo acreditar em extraterrestres, mesmo quando uma memória extraída da criança prova que os eventos de Destruam Toda a Terra realmente aconteceram. E por que as alienígenas precisam devorar o cérebro dos garotos para absorver o seu conhecimento quando parece que já tem uma máquina que faz a mesma coisa.

Mas poderão me dizer: as crianças não ligam para este tipo de coisa, apenas os nerdes. Tudo bem, então. Como estão os monstros? Ryosaku Takayama continua a nos impressionar com a sua imaginação fértil, dando-nos o oponente mais bizarro da série: um monstro que parece um lagarto, mas cuja cabeça é literalmente uma faca gigante. As fantasias em si ainda estão alguns degraus em qualidade abaixo das dos filmes de Godzilla e como sempre, o Takayama favorece criaturas que ou não tem braços ou são quadrúpedes, e ficam desajeitados ao se levantar em duas pernas. Isso limita muito os movimentos dos monstros durante as lutas. O problema é exacerbado pelo uso de marionetes para várias cenas, que são mais rígidos do que as fantasias.

O diretor de efeitos especiais Kazufumi Fujii empilha os momentos absurdos e criativos um em cima do outro para compensar a falta de agilidade dos monstros. A cena mais famosa do filme depois da mutilação do Gyaos é quando o Gamera se faz de ginasta durante a última luta com o Guiron. Por mais bobo que seja, é apropriado que um monstro que tem uma lâmina gigante por uma cabeça também tem shuriken—estrelas de ferro utilzadas por ninjas—como uma arma. O novo planeta (ou “estrela”, segundo o diálogo) não é tão convincente quanto ao Planeta X em Guerra dos Monstros, mas lutar dentro de uma cidade alienígena é algo novo que nem o outro filme fez.

A versão disponível em DVD no Brasil vem da versão editada para televisão pelo American International Pictures, que atualmente está no domínio público (conhecido em inglês como Attack of the Monsters). A cena da mutilação do Gyaos e o coro de crianças cantando a música tema do Gamera em japonês foram cortadas desta versão. Para assistir a versão completa, terá que achar a versão do Sandy Frank, lançado em fita como Gamera vs. Guiron, ou comprar o DVD importado.

Destruam Toda a Terra (1968)

Destruam Toda a Terra! (1968)


Título(s) em Inglês: Destroy all Planets!; Gamera vs. Viras

Elenco: Korjio Hongo, Toru Takatsuka, Carl Craig, Michiko Yaegaki, Mari Atsumi, Junko Yashiro

Diretor(es): Noriaki Yuasa

Produtor(es): Masaichi Nagata, Hidemasa Nagata

A série original do Gamera atingiu o seu apogeu logo no segundo e terceiro filmes, mas longe de um declínio gradual na qualidade dos filmes, a série desceu um declive íngreme logo no próximo filme. Os cinema japonês estava sofrendo muito com a crescente popularidade da televisão nos últimos anos da década de 60. Os filmes de Godzilla haviam sofrido vários cortes de orçamento e 1968 foi o ano em que o Toho produziu O Despertar dos Monstros, que tinha como finalidade dar um adeus apropriado para Godzilla e seus amigos. Mas os cortes de orçamento visto em filmes como Ebirah, o Horror do Abismo eram nada comparado ao que os filmes de Gamera sofreram.

Destruam Toda a Terra marca a primeira, mas não a última, vez em que os cineastas teriam que utilizar quantidades generosas de cenas dos filmes anteriores para aumentar a duração do filme. Pior, há uma sequência de 10 minutos ininterruptos mostrando cenas dos primeiros três filmes. Uns 12 minutos da duração de 82 minutos em composto de stock footage. Cortes no orçamento podem também ser percebidos na falta de cenas originais de destruição de imóveis, no desenho do navio alienígena que parece um conjunto de bolas de vôlei pintadas amarelo, nos “figurinos” dos invasores espaciais que parecem roupa de cirurgião e na má qualidade das fantasias e marionetes de monstros. É um tristeza por todo o lado.

Além de sinalizar a queda na qualidade do produto final, o filme introduz o cliché da invasão alienígena, tema de mais dois (três se contar Super Monster Gamera) filmes da série. Além disso, Destruam Toda a Terra completa a transição da série para um foco juvenil, em que os principais protagonistas são crianças. Mais bizarro que isso é o fato que as crianças são sempre um japonês e um branco. Neste caso, são dois jovens escoteiros que estão andando de submarino quando encontram o Gamera dentro do mar. Os jovens são raptados pelos extraterrestres, que forçam a Gamera a atacar as cidades (mais cenas roubadas de outros filmes). Gamera, amigo para todas as crianças, está forçado a destruir (e, podemos supor, matar) para não machucar duas crianças idiotas (um tema recorrente da série). Isso vai como prova que os filmes de Gamera não ocorrem no Planeta Terra que nós conhecemos, ainda mais no mundo de hoje, em que os governos permitem que terroristas matem reféns como parte de uma política de não ceder aos seus interesses. Nesses filmes, os interesses de poucos (as crianças) sempre ultrapassam os interesses da maioria (todo mundo que está morrendo).

Apesar se não chegar aos níveis de Batalha dos Monstros, Destruam Toda a Terra tem algumas cenas que é difícil imaginar como alguém achou apropriado para pequenas crianças, o alvo do filme. Logo depois do sequestro dos heróis mirins, um deles ataca um ET com uma corda, dando um puxada forte na sua mão. Para o horror de todos, a mão dele sai voando, expondo a carne e osso (mas não sangue) que tem por baixo. Depois, quando o monstro Viras está absorvendo a essência de seus colegas, ele decepa a cabeça de cada um deles na nossa frente. E não podemos esquecer-nos da última luta de monstros, em que o Viras repetidamente empala o Gamera com a sua cabeça.

Viras, por sua vez, é uma criação bizarra. É basicamente uma lula com seis tentáculos (dois onde cabem as pernas do dublê), mas com dois olhos e um bico postos em cima no corpo, em vez de perto dos tentáculos. A outra extremidade da criatura está dividida em três mini tentáculos, que podem se juntar e formar uma adaga gigante. Viras não possui nenhum raio ou outra arma. Infelizmente, ele só aparece nos últimos dez minutos do filme. A luta é razoavelmente criativa, mas a viagem até este ponto pode valer ou não a pena. Fãs hardcore de monstros gigantes ou filmes trash podem achar muito graça no filme, mas outros deverão ter cuidado.

Gammera: O Monstro Invencível (1965/1966)

Gammera o Monstro Invencível (1965/1966)

Título em Inglês: Giant Monster Gamera; Gammera, the Invincible

Elenco: Albert Dekker, Brian Donlevy, Eiji Funakoshi, Harumi Kiritachi, Junichiro Yamashiko, Jun Hamamura

Diretor(es): Noriaki Yuasa, Sandy Howard (novas cenas)

Produtor(es): Masaichi Nagata

Sinopse: Um jato russo é derrubado pela força aérea Americana no extremo norte de Alasca. O impacto do jato detona as bombas atômicas que estava carregando, e a explosão liberta Gamera, uma tartaruga monstro de 50 metros. O monstro vai para Japão e ataca uma usina geotermal antes de ir para Tóquio. Somente o “Plano Z” pode derrotar o monstro.

É surpreendente que outros estúdios japoneses demoraram tanto para tentar ganhar dinheiro em cima do sucesso internacional do Godzilla. Em 1966, Godzilla já estava aparecendo no seu sexto filme, o Toho já havia produzido vários outros filmes de monstro gigante. Além disso, os ingleses já haviam tentado entrar no jogo com filmes como O Monstro Submarino e Gorgo. Até a Dinamarca fez o Reptilicus, que contou com um dinossauro gigante atacando o Copenhagen.

Um dos primeiros tentativos para copiar o Godzilla foi um programa de televisão chamada Agon, the Atomic Dragon. O seriado contou sobre um dinossauro gigante que foi acordado devido a uma explosão atômica e ataca Japão. Produzido em 1961, o programa foi processado pelo Toho por violar seus direitos autorais sobre o Godzilla. A produção foi parada e o seriado só entrou no ar em 1966.

A segunda tentativa japonesa de seguir as pegadas do Godzilla foi mais bem sucedido, criando uma criatura quase tão icônica quanto ao Godzilla, e mais inequívoco do que o mesmo: Gamera. O estúdio responsável pela criação foi o Daiei, que antes tinha pouca expressão no gênero de ficção científica—eles produziam a série de Zatoichi, o espadachim cego e fizeram o filme clássico Chushingura, que conta a lenda dos 47 ronin. O único filme de ficção que havia produzido antes de Gammera the Invincible foi Warning from Space, uma variação no tema explorado pelo filme O Dia em que a Terra Parou em que seres extraterrestres—nesse filme, parecem pessoas que resolveram ir para uma festa de Halloween vestidas de estrela do mar--tentam advertir a terra sobre as tendências bélicas do homem.

Gammera the Invincible não tem as mesmas pretensões de sequer Warning from Space ou Godzilla, o Monstro do Mar. O cenário da Guerra Fria e a ameaça de guerra nuclear servem apenas como uma explicação de como o monstro seria solta nos tempos modernos. O roteiro é um composto de elementos do primeiro filme de Godzilla, de O Monstro do Mar e de Rodan!...o Monstro do Espaço. Do primeiro há a premissa de um monstro indestrutível que cospe fogo atacando Japão; do segundo o roteirista tirou a ideia do monstro estar preso no gelo no ártico, sendo libertado por uma explosão nuclear; do terceiro, há uma breve sequência em que um OVNI e reportado em vários partes do globo, parecido como o Rodan.

Logicamente, o diretor Noriaki Yuasa, roteirista Nisan Takahashi e diretores de efeitos especiais Ryosaku Takayama e Yonesaburu Tsukiji puseram seus toques pessoais numa história já contada inúmeras vezes. O mais marcante foi a natureza do monstro. A maioria dos monstros gigantes no cinema até 1965 haviam sido dinossauros, insetos e aracnídeos. Criar um monstro tartaruga gigante em si já é pensar out of the box. Mas para fazer isso e ainda conceder-lhe a habilidade de transformar num disco voador é uma reviravolta surrealista que Toho jamais colocaria nos seus filmes até a próxima década. Takayama e Tsukiji desenharam uma fantasia bela do Gamera, trocando a cara de bico de uma tartaruga normal para algo que parece mais como um dinossauro. Os detalhes da fantasia são bem complementados pela fotografia preta e branca. As miniaturas, principalmente durante o ataque do Gamera na usina geotermal e em Tóquio estão quase a par com o melhor trabalho de Eiji Tsuburaya. Os efeitos menos convincentes são os jatos que aparecem no começo. Vale observar que as cenas do Gamera em pleno voo foram feitas através de desenhos animados superimpostos no celuloide, o que não foi feito depois quando os filmes foram feitos em cor.

Infelizmente, o roteiro em si não aguenta nem um pouco de análise. Na verdade, as detalhes da história são tão ridículas que quase transformam o filme numa paródia, mas com a mesma falta de ironia que Leslie Nielsen demonstrava em Corra que a Polícia Vem Aí! Isso se aplica a ambas as versões do filme: a original e a que estreou nos EUA com cenas de atores americanos como Albert Dekker (O Delírio de um Sábio) e Brian Donlevy (Terror que Mata) inseridas no meio. Na versão americana, o personagem principal, Dr. Hidaki, está a procura de tartarugas gigantes em Alasca. Isso já é um absurdo. Na versão japonesa, ele está em busca de evidências que tartarugas gigantes viviam na Atlântida. Daí surgem as perguntas: Como ele conseguiu prova de que a Atlântida existisse de verdade? O que levou o Hidaki a pensar que tartarugas habitavam neste lugar? Por que ele está procurando evidência em Alasca, quando Atlântida existia no Oceano Atlântico? Como um zoólogo com uma teoria dessas se torna um dos cientistas mais respeitados no mundo, segundo a lógica interna do filme?

E a questão dos aviões soviéticos voando sobre Alasca carregando bombas nucleares. Se estiver assistindo a versão americana, percebe-se que o assunto é esquecido até um momento perto do final do filme quando um senador tem uma discussão com o embaixador russo—o tom da cena é um de humor. Mas no filme japonês, o assunto não é mencionado em momento algum. Mas se a União Soviética acabou de fazer um ato de guerra como entrar no espaço aéreo americano carregando armas nucleares, como é que os dois países poderiam estar trabalhando em conjunto no Plano Z sem o mínimo de inimizade. Por sua vez, quem teve a ideia de construir um foguete de uns 300 metros numa ilha perto de Tóquio com um vulcão ativo? Como é que nem os Japoneses parecem saber que dois rivais internacionais estão construindo um foguete no seu próprio solo? E qual era a finalidade de um foguete de 300 metros no primeiro lugar?


Igualmente bizarra é a inclusão de uma criança, Toshio, como um protagonista que deseja proteger o Gamera. A cena foi cortada da versão inglesa do Sandy Frank, mas no filme japonês, o garoto acha que o Gamera é na verdade a tartaruga de estimação dele, Pee Wee, que ele soltou pouco tempo depois do Gamera aparecer em Japão. Este detalhe é perdido em inglês, assim nos dando um personagem que declara que o Gamera é o amigo de todas as crianças, mesmo quando a criatura está derrubando prédios cheios de adolescentes! É como o Gamera fosse criado já num estado de transição de vilão para herói, ao contrário de Godzilla, que evoluiu gradualmente durante vários filmes para chegar nesse ponto...ou talvez o roteirista não sabia o que estava fazendo.

Varan, o Monstro do Oriente (1962/1959)


Varan, o Monstro do Oriente (1962)

Título(s) em Inglês: Varan the Unbelievable

Elenco: Myron Healy, Tsuruko Kobayashi, Derick Shimatsu, Kozo Nomura, Ayumi Sonoda, Akihiko Hirata

Diretor(es): Ishiro Honda, Jerry Baerwitz (novas cenas)

Produtor(es): Tomoyuki Tanaka, Sid Harris (novas cenas)

Sinopse (versão americana): Um comandante naval americano, , e a sua esposa japonesa estão trabalhando numa pequena ilha japonesa chamada Kunashirahima. A missão deles é para testar uma nova química que pode dessalinizar a água. Contra a vontade dos nativos, a química é lançada no lago salgado no meio da ilha. Um grande monstro pré-histórico, Varan, é acordado pelos testes e começa a destruir tudo ao seu redor.

Mais do que outros filmes japoneses, podemos fazer o argumento de que Varan, o Monstro do Oriente e a versão original, Daikaiju Baran, são realmente dois filmes completamente diferentes. Embora muitos fanáticos de cinema iriam denunciar o tratamento do filme original japonês desse jeito, clamando “Racismo!” contra os cineastas que estavam convencidos de que um filme de monstros iria necessitar de um ator branco para vender ingressos, a verdade é que Varan, o Monstro do Oriente, por mais inferior ao original que seja, tem algo que o original não possui: uma história.

O filme japonês é demasiadamente simples quanto ao seu roteiro. No começo do filme, um foguete é lançado para  o espaço e todo mundo está feliz com essa proeza. Mas isso não tem nada ver com os eventos subsequentes. No norte do Japão, alguns cientistas procurando uma espécie rara de borboleta são mortos por um monstro. Uma dupla de cientistas chega lá para pesquisar, e o monstro titular emerge de um lago e começa destruir tudo. Fim. Não há nenhum subtexto tampouco uma explicação de por que o monstro apareceu no primeiro lugar. O filme é basicamente uma cena de ação ininterrupta do ataque de um monstro.

A versão americana já aborda a situação diferente. Ator Myron Healy (que apareceu em vários seriados de faroeste como Cheyenne; Rawhide e Laramie) aparece como Capitão James Bradley, um oficial no exército americano conduzindo experiências numa ilha japonesa fictícia chamada Kunashirashima. O objetivo da experiência é transformar água salgada em água doce através de uma nova química. Os nativos não querem colaborar com a operação, e o exército local é chamado para “convencer-lhes” a sair. Isso tem o efeito de sujar o nome do Bradley com a imprensa japonesa. E quando a experiência é executada, o monstro Varan (chamado “Obake” no filme, apesar do título reter o nome original da criatura) aparece.

Por quase toda a primeira metade do filme, o foco está nas cenas novas de Healey e atriz Tsuruko Kobayashi, que faz o papel de Ana, a esposa japonesa do Capitão Bradley. De tempos em tempos, alguns segundos do filme original são mostrados. Interessante é que os cientistas principais do filme japonês (Kozo Nomura e Ayumi Sonoda) aparecem em algumas cenas, mas segundo a narração do Healey, são Paul e Shidori Aeso, dois jornalistas de Tóquio. Akihiko Hirata, que apareceu no original como cientista, pode ser visto apenas brevemente no filme americano. É somente quando o Varan/Obake sai do lago que as cenas dos novos atores se tornam mais escassas e o foco é colocado nas cenas de Baran destruir tudo ao seu redor. Os personagem de Ana e Capitão Braldey passam a última metade do filme na estrada dentro do seu jipe, já que não havia dinheiro no orçamento para montar um cenário que se integraria com o  ataque em Tóquio (agora “Oneda, a cidade maior de Kunashirashima”).  


Se Varan, o Monstro do Oriente é superior artisticamente ao original, então podemos dizer que é inferior tecnicamente ao Daikaiju Baran. Apesar das cenas de efeitos especiais são as mesmas entre os dois filmes—o maior corte nesse respeito é a cena em que o Varan voa feito um esquilo voador—os cineastas americanos acharam necessário mudar o rugido do monstro e a trilha sonora. O berro do Varan era muito aparecido ao do Godzilla, principalmente a berro que se ouvia em Godzilla Contra Biollante e Godzilla contra o Monstro do Mal. Isso foi trocado um chilro parecido como o dos velociraptores em Jurassic Park e um rosnado baixo de um cachorro. Mas pior que isso, a trilha sonora formidável de Akira Ifukube é trocado por umas músicas genéricas pouco inspiradas. De fato, boa parte das cenas de ação nos últimos 20 minutos do filme faltam acompanhamento musical de qualquer tipo. Isso se torna as cenas menos interessantes do que são na versão japonesa e é evidência de quanto importância a trilha sonora e o compositor têm nesse gênero.


Além da música, a maior contribuição desse filme ao gênero é a criação do monstro Varan, que é mistura sublime de simplicidade e criatividade. Uma espécie de dinossauro, o Varan é quadrúpede com uma única linha de espinhas longas e finas começando no topo da cabeça  e descendo até a cauda. Tem membranas entre as pernas, com as quais possa voar. Também é capaz de ficar em baixo da água durante períodos longos, tornando-o um monstro trifíbio. O monstro nunca teve um papel expressivo em mais nenhum filme: aparece um alguns segundos em Despertar dos Monstros e uma cena desse filme aparece no início de Godzilla: A Batalha Final. Houve alguns roteiros que contavam com a sua presença, como no roteiro original de Godzilla, Mothra, King Ghidorah: Giant Monster All-Out Attack, mas foi trocado por outros monstros posteriormente. Ele apareceu no jogo Godzilla: Monster of Monsters para o Nintendo Entertainment System.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Segredo do Homem Elétrico (1960)

O Segredo do Homem Elétrico (1960)

Título(s) em Inglês: Secret of the Telegian

Elenco: Koji Tsuruta, Tadao Nakamaru, Yumi Shirakawa, Akihiko Hirata, Yoshio Tsuchiya, Seizaburo Kawazu, Sachio Sakai, Takamaru Sasaki, Shin Otomo, Yoshifumi Tajima
 
Diretor(es): Jun Fukuda

Produtor(es): Tomoyuki Tanaka

Sinopse: Numa casa de terrores de um parque de diversão, um homem é assassinado com uma baioneta por um homem de preto que depois some sem ser visto por ninguém. Dois detetives (Yoshio Tsuchiya e Akihiko Hirata)e um cientista (Koji Tsuruta) investigado a cena do crime descobre um tubo de vácuo. Segundo outro cientista, Dr. Murai (Fuyuki Murakami), o tubo tem que estar exposto a temperaturas abaixo de zero para servir a sua função. Os três levam a sua pesquisa ao apartamento do defunto, e depois para o boate cujo dono, Sr. Takashi (Yoshifumi Tajima), serviu no exército com o morto. Takashi está tendo uma reunião com dois criminosos, que também serviram na mesma guarnição durante a Segunda Guerra Mundial. Os três têm recebido bilhetinhos ominosos, e agora recebem uma fita com uma mensagem do Assassino de Baioneta anunciando que os três serão seus próximos vítimas...

O Segredo do Homem Elétrico faz parte da “Série Mutante” do Toho, em que o monstro representa os efeitos da ciência e tecnologia moderna no ser humano. A característica mais marcante desse filme é que foi a estreia do Jun Fukuda como diretor. Fukuda trabalharia como diretor em cinco filmes de Godzilla numa época em que o Toho estava restringindo os orçamentos dos filmes para lidar com a perda de audiências para a televisão. O nome dele já se tornou sinônimo com roteiros infantis e mal elaborados, um Godzilla cada vez mais antropomórfico e a proliferação de cenas de outros filmes para aumentar a duração do filme. Alguns filmes do Fukuda, como Godzilla vs. Megalon e Ebirah, o Terror do Abismo, são considerados por muitos a serem os piores filmes de Godzilla de todos os tempos.

Mas esse primeiro filme dele já é menos risível do que as suas contribuições à série de Godzilla. Apesar de ser classificado como filme de ficção científica, a estrutura do filme é mais alinhada com um filme de mistério com leves elementos de terror, em que os métodos do assassino incorporam ideias de ficção científica, neste caso uma máquina de teleportação—o título em português provavelmente se refere ao efeito visual que ocorre quando o vilão utiliza a máquina de teleportação, em que parece que o homem é feito de eletricidade. Há pouco da bagagem temática que os filmes do Ishiro Honda inseriria nos seus filmes e Fukuda mostra desde o começo que está mais interessado em criar algo divertido. Mas diferente dos filmes de Godzilla, o orçamento limitado não é problema aqui, já que o escopo da ameaça é muitas vezes menor do que múltiplos monstros atacando a cidade, então os objetivos do filme são mais fáceis de alcançar.


Em geral, este filme é um sucesso para Fukuda. Diferente do Monstro da Bomba H, os elementos de ficção científica e de filme de crime não atrapalham um ao outro, pois é o primeiro que está utilizado para realizar o segundo. Há pouco mistério no filme, mas a história é interessante e pouco tempo é perdido com a história romântica entre o cientista, Kirioka e Akiko, a vendedora que conhece o assassino sem o saber. O papel de Akiko, estrelada por Yumi Shirakawa, é uma das falhas no roteiro, pois ela some do filme nos últimos 20 minutos. Parece que o motivo principal de incluí-la no filme foi para aumentar o suspense do filme. Afinal, quando o assassino tem criminosos e bandidos como alvos, é fácil torcer no seu favor. Mas se transformá-lo num estuprador em potencial, daí ele se torna mais sinistro. Mas o roteirista Shinichi Sekizawa poderia ter removido o personagem de Akiko e o vilão teria sido tão mal, pois até o fim do filme, ele é assassino de policial também.


Outro problema no roteiro é o tratamento de teleportação em si, pois as regras não parecem muito consistentes. Quando conhecemos o Assassino de Baioneta, ele aparece do nada no meio de um grupo de pessoas e mata a sua presa antes de sumir. Dá a impressão que a máquina de teleportação é necessário para iniciar o processo, mas que o usuário possa voltar à origem mentalmente. Porém, em cenas subsequentes, revela-se que uma segunda máquina é utilizada para voltar à base de operações, qual máquina tende a explodir depois de ser usada. Isso nos deixa pensando como foi que conseguiu sair da caverna mal-assombrada sem ninguém perceber, ou por que não houve uma explosão ou incêndio depois do primeiro assassinato.

Fora disso, o filme providencia bastante emoção, ampliada pela trilha sonora assustador do Masaru Sato, que colaborou com Jun Fukuda em todos os seus filmes de ficção científica, inclusive os do Godzilla. Os efeitos especiais são mais limitados neste filme algumas miniaturas e efeitos óticos, os quais são bastante invovadores. Durante as sequências de transportação, o efeito visual da distorção do ar em forma de ser humano parece um efeito semelhante do Predador de 1987. Além disso, o destino final do Assassino da Baioneta lembra muito a cena famosa da falha do transportador no Jornada nas Estrelas: O Filme de 1979.